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A crise é um acelerador de futuro

Em conferência da Amcham, presidente da ABDI defende que a transformação digital é algo muito maior do que a simples adoção de novas tecnologias

Bruna de Castro | 24/06/2020

A transformação digital do setor produtivo brasileiro será fundamental no cenário pós-Covid. A declaração foi dada pelo presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Igor Calvet, na abertura da videoconferência sobre “Indústria 4.0 e o movimento atual de inovação fabril no mercado brasileiro”, promovido pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), na manhã da quarta-feira (24).

Ao falar para mais de 60 CEOs e executivos de grandes empresas brasileiras e multinacionais, o presidente da ABDI foi cirúrgico. “Estamos em um cenário que exige um reposicionamento das empresas, de forma ágil e resiliente. E não estamos falando apenas de adoção e difusão de novas tecnologias voltadas para a indústria 4.0. A questão é muito mais complexa. Estamos falando de ser ágil, de mudanças na estrutura e na cultura organizacional, de estar sempre preparado para um cenário mutante que veio impulsionado pela pandemia e convergente com a 4ª Revolução Industrial”, alertou.

Calvet mencionou três aspectos importantes a serem observados pelo setor produtivo e que lançam um sinal amarelo para o impacto desse novo normal. “O primeiro é a própria crise sanitária que, por consequência, trouxe uma crise econômica sem precedentes. O segundo aspecto é a crise como um fator acelerador do futuro”, observou. Nesse quesito, o presidente da ABDI alertou que empresas que ainda não iniciaram sua transformação digital correm o risco de não sobreviverem. “A transformação digital será essencial para a retomada da economia e para ajudar as empresas que, agora estão em dificuldades, a se reposicionarem mais rapidamente no mercado, inclusive diante dos antigos concorrentes e dos novos entrantes”.

O terceiro aspecto e mais complexo é o que Calvet chamou de “Game changer”, onde a crise mudou a forma como o mercado opera, alterou o comportamento do consumidor, obrigando setores inteiros a se reinventarem. “O setor aéreo, por exemplo, é um que terá de se reinventar completamente, tendo em vista que a economia digital encurtou as distâncias significativamente”, destacou o presidente, ao mencionar a revolução no varejo, que deverá obedecer a novos protocolos, a adoção da omnicanalidade no atendimento, os novos protocolos intrafirmas.

Segundo o presidente, as empresas vão precisar tem em mente que eficiência produtiva, redução de custos, adoção de tecnologias 4.0, mudança na cultura digital, liderança e agilidade na tomada de decisão são questões que precisam andar juntas. Ele citou como exemplo a própria ABDI. “Assim que  assumi a ABDI, também iniciamos um processo de transformação digital, desde a cultura organizacional até a adoção de ferramentas e processos mais ágeis”, disse.

A indústria 4.0 no cenário da Covid-19

Ainda em sua apresentação, Igor Calvet falou dos diversos projetos coordenados pela ABDI para o estímulo e ampliação da maturidade digital do setor produtivo brasileiro. “A indústria 4.0 não é um futuro. É para agora”, enfatizou. Para ele, a transparência e a visibilidade do processo produtivo junto à cadeia de fornecedores, a mobilidade das pessoas, o uso de inteligência artificial (machine learning) para a tomada de decisão, a tecnologia móvel com o uso de realidade aumentada e virtual para o treinamento de colaboradores são funcionalidades que podem ser aplicadas imediatamente.

Um exemplo de tecnologia 4.0 que surgiu no cenário da pandemia foi a ferramenta Respira Mais, coordenada pela ABDI com inúmeros parceiros, para ajudar o Ministério da Saúde (MS) na capacitação dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) no uso e manutenção dos ventiladores utilizados para o combate à doença. “Foi uma entrega para o MS customizada com inteligência artificial e voltada para a qualificação do capital humano nos hospitais”, pontuou, ao citar ainda o uso de impressoras 3D, que podem produzir peças para ventiladores e respiradores, parados por falta de manutenção.

Câmara da Indústria 4.0

Para a adoção das tecnologias voltadas para a indústria 4.0, o governo também precisa fazer a sua parte, defendeu Calvet, ao citar as ações da Câmara da Indústria 4.0, que reúne um comitê executivo formado pelos Ministérios da Economia (ME), Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), BNDES, Finep, ABDI, EMBPRAPII, CNI, Sebrae e CNPQ.

Calvet destacou as quatro linhas de atuação do colegiado: estímulo ao desenvolvimento tecnológico e à inovação; fortalecimento das cadeias produtivas e desenvolvimento de fornecedores; capacitação e qualificação de capital humano para atuar no ambiente da economia 4.0; e o desenvolvimento de tecnologias relacionadas à regulação, normalização técnica e infraestrutura. 

“A Câmara traz uma institucionalidade para o tema e contribui para a convergência de esforços, impedindo a dispersão e otimizando os recursos”, afirmou, ao citar como exemplo o recente edital de R$ 50 milhões lançado pela Finep e MCTIC para o desenvolvimento de produtos, processos e serviços inovadores nas áreas do Agro 4.0, Cidades Inteligentes, Indústria 4.0 e Saúde 4.0. A chamada pública da Saúde 4.0, por exemplo, é voltada para sistemas de predição, monitoramento remoto, telemedicina, gestão hospitalar, prevenção e controle de epidemias.

Inserção internacional

Ao final, o presidente falou da importância da inserção internacional da ABDI voltada para a articulação com outros entes com foco na transformação digital. Segundo Calvet, a Agência firmou parceria com o Fórum Econômico Mundial (WEF) e a primeira ação será a criação do Centro para a 4ª Revolução Industrial, em parceria com o Ministério da Economia e o Governo do Estado de São Paulo. 

Recentemente, a ABDI passou a integrar a Rede Global de HUBs de Manufatura Avançada do WEF. “Alguns países fazem parte desta rede, como os EUA, Dinamarca, Turquia, Coreia, Itália e Austrália. E agora, o Brasil passa a integrar o grupo e os nossos empresários brasileiros poderão compartilhar experiências e práticas de sucesso no fomento da indústria 4.0”, finalizou. 

O debate contou ainda com a participação do presidente da Siemens Brasil, Pablo Fava, que falou do processo de transformação digital da multinacional no país e os desafios impostos pela pandemia. “Concordo com o presidente Calvet. A transformação digital é um fator condicionante para a sobrevivência das empresas. E nesse processo eu aponto a cibersegurança como o maior desafio para a jornada 4.0”, disse, ao mencionar outras tecnologias como a Inteligência Artificial, Internet das Coisas, implementação da rede 5G também como pilares para a transformação digital.

Pela ABDI, acompanharam a palestra a assessora especial da Presidência, Marcela Carvalho, e o gerente da Unidade de Difusão de Tecnologias, Bruno Jorge. Representaram a Amcham Brasil os executivos Nelson Wagner, Carlos Nóbrega e Eduardo Cima.