ABDI defende diálogo entre setor e governo para ampliar previsibilidade na agenda de data centers

ABDI defende diálogo entre setor e governo para ampliar previsibilidade na agenda de data centers

Presidente Olavo Noleto participa de painel sobre regulação em evento realizado no mesmo dia da sanção do Redata, regime de incentivos para o segmento

A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) participou, nesta terça-feira (15/9), em São Paulo, do GRI Data Center 2026, evento que reuniu investidores, desenvolvedores, operadores de infraestrutura e empresas de energia para discutir os desafios e as oportunidades de expansão dos data centers no Brasil. O encontro ocorreu no mesmo dia da sanção presidencial da do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), que cria incentivos tributários para a instalação e ampliação desses empreendimentos, condicionados ao cumprimento de contrapartidas.

A medida ocorre em meio ao debate sobre o ambiente regulatório necessário para acompanhar a expansão da infraestrutura digital no país. Nesse contexto, o presidente da ABDI, Olavo Noleto, participou do painel “Previsibilidade Regulatória: os marcos institucionais acompanham a velocidade do setor?”, ao lado de Daniela Caverni, diretora administrativa da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), e Daniela Risaffi, gerente jurídica da Siemens Brasil. A moderação foi conduzida por Pablo Queiroz, sócio da Demarest Advogados.

Durante o painel, Noleto destacou que a construção de um ambiente regulatório para os data centers envolve diferentes interesses e áreas de governo. O presidente da ABDI ressaltou que a expansão do setor envolve questões que precisam ser tratadas de forma coordenada, como disponibilidade de energia e água, meio ambiente, direitos individuais e regulação.

“Se, de um lado, o mercado e os operadores têm as suas dores e as angústias de uma agenda que consideram atrasada, do outro lado existe uma complexidade de se negociar as mil pontas dessa história. Por mais que as fontes de água e energia e a matriz energética brasileira sejam favoráveis, já é uma discussão complexa saber onde instalar data centers. Não existe regulação que dê conta sozinha da complexidade que está colocada para nós.”

Para Noleto, a construção de soluções passa também por uma interlocução mais próxima entre empresas e poder público. Ele defendeu que o próprio setor contribua para qualificar o debate regulatório, levando informações e conhecimento técnico aos agentes responsáveis pela formulação das políticas públicas.

“Quem melhor pode orientar esse debate e essa estratégia é o setor. O setor precisa conseguir conversar com o agente público e explicar como funciona, educar o agente público e fornecer, se possível, as informações para que o governo possa regular adequadamente. Se o setor conseguir atuar na interlocução de uma forma mais coesa, mais organizada, isso ajuda.”

Data centers e desenvolvimento industrial

O presidente da ABDI também chamou atenção para o potencial dos data centers para impulsionar a transformação tecnológica e produtiva do país. Noleto destacou que o Brasil já possui empresas, conhecimento e tecnologia capazes de participar desse processo e defendeu que a expansão do setor esteja conectada à digitalização da indústria brasileira.

“A gente tem um setor forte, temos tecnologia embarcada brasileira e grandes exemplos. O setor já tem competitividade e isso dialoga com a temática. A industrialização, a digitalização da nossa indústria, esse processo não é bravado. A gente não o faz com bravado. A gente faz com muito diálogo, com muito pacto e com construção generosa.”

Noleto também citou iniciativas da ABDI voltadas à aproximação entre tecnologias digitais e as necessidades das empresas brasileiras. Entre elas o MetaIndústria, com laboratórios de difusão de tecnologia voltados às demandas das indústrias e empresas brasileiras, e a Nuvem Brasileira, coordenada pela ABDI em parceria com o Serpro e o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), no processo de encomenda de tecnologia.

“O MetaIndústria é essa construção de laboratórios de difusão de tecnologia para atender às necessidades das indústrias e das empresas brasileiras e trazer essa tecnologia para o chão de fábrica. E temos a Nuvem Brasileira, que a ABDI está coordenando junto com o Serpro e o MGI, no processo de encomenda de tecnologia. Hoje estamos aqui debatendo, mas construindo todos os dias o Brasil do futuro.”

Regulação e inovação

A diretora administrativa da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), Daniela Caverni, destacou que a previsibilidade regulatória precisa caminhar junto com a capacidade de inovação. Para ela, regras excessivamente restritivas podem limitar a evolução tecnológica e afetar a atratividade do país para novos investimentos.

“A tecnologia muda todo dia, evolui todo dia. Se eu coloco uma regulamentação muito restrita, isso certamente vai impactar a minha evolução tecnológica e o que eu quero trazer para o país enquanto tecnologia. A gente defende uma regulamentação que estabeleça direitos e obrigações, mas que também permita essa evolução.”

Caverni também chamou atenção para a necessidade de segurança jurídica no debate sobre inteligência artificial, especialmente em temas como direitos autorais. Na avaliação da representante da ABES, a regulamentação precisa considerar as diferentes formas de utilização das informações pelas tecnologias de IA, sem tratar situações distintas de maneira uniforme.

Também representaram a ABDI no encontro em São Paulo a diretora de Industrialização Sustentável e Transformação Tecnológica, Neide Freitas, a gerente da Unidade de Difusão de Tecnologias, Isabela Gaya, o superintendente-executivo, Olmo Borges Xavier, e o chefe de Gabinete, Nikolas Vieira.

Compromissos e investimentos

Além do regime tributário específico para o setor, o Redata estabelece compromissos relacionados à sustentabilidade, ao investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação e à disponibilização de parte da capacidade de processamento, armazenagem e tratamento de dados para o mercado interno.

A intenção do governo é atrair investimentos, ampliar a infraestrutura digital e aumentar a capacidade do Brasil de armazenar e processar dados, demanda que ganhou ainda mais importância com o avanço da inteligência artificial.

Foto: Murilo Góes