O presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Olavo Noleto, participou nesta quarta-feira (19/08) do Fórum Saúde – Soberania e Tecnologia: Impulsionando a Indústria Nacional, em Brasília. No painel “Inteligência Artificial e a Nova Era da Descoberta de Medicamentos”, Olavo debateu com especialistas e representantes do governo os impactos da inteligência artificial na pesquisa, no desenvolvimento e na produção de medicamentos e os desafios para ampliar a autonomia tecnológica do país.
Ao abordar a relação entre inteligência artificial, indústria e saúde, o presidente da ABDI destacou que o avanço tecnológico precisa estar associado a uma estratégia de desenvolvimento produtivo. Para Olavo, a indústria deve ocupar posição central na agenda de soberania nacional, especialmente em setores estratégicos como o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).
“Nós temos que parar de olhar para a nossa indústria como um acessório. Ela é o centro da estratégia da soberania nacional”, afirmou.
Segundo Olavo, a Nova Indústria Brasil (NIB) estabelece uma direção para que o país identifique setores e cadeias produtivas nos quais possui condições de ampliar competitividade. No caso da saúde, ele ressaltou que a agenda envolve um conjunto amplo de cadeias produtivas e exige, além da capacidade industrial, o domínio de tecnologias digitais.
“Nós não vamos dar conta de liderar em tudo. O que precisamos é eleger e aprimorar, todos os dias, quais cadeias podemos potencializar no sentido da competitividade.”
Inteligência artificial aplicada à indústria da saúde
O presidente da ABDI apresentou iniciativas da Agência que aproximam inteligência artificial, transformação digital e indústria. Entre elas, destacou a parceria com a Anvisa para a modernização de sistemas e processos regulatórios, com uso de inteligência de dados e automação na análise de informações relacionadas ao registro de medicamentos.
Para ele, o desafio não está apenas na infraestrutura necessária para a inteligência artificial, mas também no desenvolvimento de uma camada nacional de softwares e serviços capaz de atender às necessidades estratégicas do país.
“Além da infraestrutura de IA, o nosso desafio é desenvolver uma segunda camada de um ecossistema de softwares que dê conta de prestar os serviços necessários que as cadeias industriais vão precisar.”
Dados, inovação e desenvolvimento tecnológico
A discussão também abordou o potencial dos dados produzidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e os desafios para transformá-los em conhecimento, inovação e valor para a sociedade.
O pesquisador científico do Hospital Israelita Albert Einstein, Felipe Fanchini, destacou que a inteligência artificial já produz impactos em diferentes etapas da descoberta de medicamentos, mas ponderou que a tecnologia não substitui todo o processo científico e industrial.
“A IA pode sugerir moléculas, sugerir alvos, para que a gente possa encurtar o processo, baratear o processo.”
A secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, ressaltou a necessidade de o Brasil não se limitar ao papel de consumidor de novas tecnologias, mas desenvolver capacidade própria para produzi-las e participar de sua governança.
“Como é que a gente não se torna apenas um consumidor de novas tecnologias, mas desenvolve a capacidade de produzi-las, regulá-las e decidir como utilizá-las.”
Ana Estela também destacou a importância de estruturar as bases necessárias para ampliar o uso da inteligência artificial na saúde, com avanços em interoperabilidade, soberania e regulação.
“Esses dois aspectos, a plataforma de interoperabilidade e o modelo de soberania, são as duas principais questões estruturantes que nos preparam, junto com a regulação da aplicação do uso da IA na saúde, para que a gente possa fazer um ganho de escala e sermos então protagonistas no uso da IA na saúde.”
Regulação e inteligência artificial
O chefe da Quinta Diretoria da Anvisa, Thiago Lopes Cardoso Campos, chamou atenção para os novos desafios regulatórios provocados pela incorporação da IA à cadeia de desenvolvimento de medicamentos. Segundo ele, será necessário discutir o que exatamente deve ser regulado diante de processos cada vez mais mediados por algoritmos.
O diretor também defendeu o fortalecimento da chamada inteligência regulatória, com uso de dados e ferramentas analíticas para acompanhar os medicamentos ao longo de todo o seu ciclo de vida.
“A gente tem trabalhado na perspectiva de que essa inteligência regulatória é o que a gente tem apostado com uma vigilância sanitária 4.0.”
A participação da ABDI no debate reforça a atuação da Agência na conexão entre política industrial, transformação digital e inovação em saúde, em convergência com a Missão 2 da Nova Indústria Brasil, que busca fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade produtiva e tecnológica nacional.