A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) reuniu, na manhã desta quarta-feira (2), em Brasília, representantes do governo, do setor mineral e da indústria para discutir o futuro dos minerais críticos no Brasil. O encontro ocorreu no mesmo dia em que o Senado começou a analisar o Projeto de Lei nº 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e prevê medidas para estimular a pesquisa, a extração, o beneficiamento e a transformação desses recursos no país.
Na segunda edição do Café com a Indústria, iniciativa da Agência voltada à promoção do diálogo sobre temas relevantes para a competitividade da indústria nacional, o debate se concentrou em uma questão estratégica: como transformar a vantagem mineral brasileira em capacidade produtiva, tecnológica e competitiva.
Durante a abertura, o presidente da ABDI, Olavo Noleto, destacou o papel da Agência na conexão entre a política industrial e a realidade das empresas. Segundo ele, é preciso transformar diretrizes em condições concretas para que a indústria possa investir, inovar e competir.
“Entre a política industrial, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), e a sua implementação concreta pela indústria, existe uma distância. É preciso fazer com que a empresa consiga se financiar, acessar inovação e equipamentos e ganhar competitividade para disputar mercados. É aí que entra a ABDI, como um instrumento fundamental para erguer os pilares que permitam à indústria atravessar essa ponte”, disse.
Para Noleto, o Brasil não pode perder a oportunidade de transformar seu minério em riqueza industrial e tecnológica. “É importante ampliar a produção de minerais críticos, mas é preciso também criar condições para que parte crescente desse valor permaneça no país, na forma de investimentos, mudança do perfil tecnológico da nossa indústria, criação de novas empresas, geração de renda e empregos qualificados. Esse é um debate estratégico para o futuro da indústria brasileira”, afirma.
A experiência internacional mostra que ter recursos naturais é apenas parte da equação. Na abertura, o secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC, Uallace Moreira, citou a Coreia do Sul como exemplo de país que construiu uma indústria siderúrgica competitiva sem contar com a mesma abundância mineral brasileira.
O contraste ajuda a explicar o desafio brasileiro. “O governo tem deixado claro que não quer que aconteça com os minerais críticos e estratégicos o que aconteceu, por exemplo, com o minério de ferro, que a gente acaba exportando e não agrega valor.”
A Coreia do Sul, segundo Moreira, mostra que recursos naturais não são suficientes para determinar a posição de um país na economia global. “A vantagem competitiva não cai do céu. Você constrói através de políticas públicas.”
A mesma lógica deve orientar, segundo o secretário, a política brasileira para minerais críticos e estratégicos. Ele defendeu que os recursos naturais sirvam de base para o desenvolvimento tecnológico. “Os minerais são extremamente importantes para todas as tecnologias da indústria 4.0 e o Brasil não pode aceitar a condição de ser um exportador de commodities.”
Da mineração à indústria
O primeiro painel desta edição do Café com a Indústria, “Minerais críticos: potencial brasileiro para o desenvolvimento industrial e tecnológico”, discutiu como transformar o potencial mineral brasileiro em negócios, tecnologia e produção industrial.
Uma das oportunidades está em aproximar diferentes etapas da cadeia e ampliar a complexidade dos produtos desenvolvidos no Brasil. O analista de Produtividade e Inovação da ABDI, Jorge Boeira, que mediou o painel, resumiu o desafio em uma mudança de patamar na cadeia produtiva. “Há espaço para a gente avaliar as possibilidades de integração das cadeias de valor e produzir materiais mais sofisticados e mais tecnológicos no Brasil”, afirmou.
Na prática, isso significa avançar para etapas como o refino químico, a produção de materiais avançados, componentes industriais e produtos de maior conteúdo tecnológico, reduzindo a dependência da exportação de matérias-primas.
A concentração da produção de tecnologias e insumos estratégicos em poucos mercados também colocou a dimensão geopolítica no centro da discussão. Para o Brasil, a diversificação dessas cadeias pode abrir espaço para uma inserção internacional apoiada não apenas na oferta de recursos minerais, mas também em conhecimento e tecnologia.
Nesse cenário, Boeira apontou uma frente de atuação para a ABDI, que é a de produzir conhecimento capaz de apoiar a tomada de decisão do governo federal. “Nós entendemos que há um espaço institucional que a ABDI possa ocupar para subsidiar o governo federal com inteligência industrial”, disse.
A aproximação entre pesquisa, mineração e indústria foi outro ponto destacado no painel. Para o diretor-presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Pablo Cesário, o desafio agora é ampliar a escala e a articulação dos projetos de pesquisa. “Estamos numa inflexão. O setor mudou, o mundo mudou, e o futuro que a gente quer construir passa pela mineração. Temos no país pesquisadores de alta linha, mas não adianta fazer projetos fragmentados. O desafio é estruturar grandes projetos de pesquisa que envolvam empresas e centros de pesquisa no Brasil e no exterior, para que a gente domine o processo tecnológico integralmente.”
A agenda da ABDI na área também já começa a se traduzir em projetos. Em parceria com o Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), a Agência trabalha na estruturação de iniciativas voltadas ao lítio e às terras raras. Entre as frentes estão uma proposta de projeto conceitual para a produção de carbonato e hidróxido de lítio no Vale do Jequitinhonha e estudos para a reconversão de plantas químicas destinadas à produção de precursores e materiais ativos de células de baterias, etapas de maior complexidade tecnológica e valor agregado.
A atuação da Agência no tema, porém, não começou agora. O trabalho remonta a 2010, quando a ABDI apoiou um estudo conceitual para a implantação de um laboratório-fábrica de ímãs de terras raras. Desde então, a agenda avançou por iniciativas como o programa ETR-BR, no âmbito do Plano Brasil Maior, além de ações relacionadas à mobilidade elétrica e parcerias com instituições de pesquisa e órgãos do governo.
Na mesma frente, a atuação da ABDI alcança os gargalos regulatórios do setor. Por meio do programa Destrava Brasil, a Agência trabalha com a Agência Nacional de Mineração (ANM) em projetos de modernização administrativa e normativa. Com a aplicação de IA, a iniciativa já permitiu a análise de cerca de 40 mil processos, com elevados níveis de acurácia, dentre eles a conclusão de 14 mil análises de pós pesquisa mineral e a entrega de aproximadamente 20 mil processos da fase de pesquisa mineral.
O painel teve ainda a participação de Miguel Nery, gerente-executivo (ABPM); Roberto Xavier, diretor-executivo (ADIMB); e de Marisa Cesar, presidente do Conselho de Administração (AMC).
Tecnologia e agregação de valor
O segundo painel levou a discussão para as etapas seguintes da cadeia, com foco em tecnologia, transformação industrial e acesso a mercados. A gerente de Nova Economia e Indústria Verde da ABDI, Talita Daher, abriu a discussão com uma questão que sintetizou o desafio: “como transformar a dotação brasileira de minerais críticos em capacidade tecnológica, produção industrial e exportações de maior valor agregado?”
O painel “Da mineração à indústria: tecnologia, agregação de valor e novas cadeias produtivas” discutiu a articulação entre mercado doméstico, cooperação tecnológica e inserção internacional. Para a diretora de Desenvolvimento da Indústria de Alta-Média Complexidade Tecnológica do MDIC, Margarete Maria Gandini, a discussão passa pela posição que o Brasil pretende ocupar nas cadeias globais. “A verdadeira soberania não está simplesmente em possuir recursos, mas na nossa capacidade de dominá-los e transformá-los”, afirmou.
A discussão ganha dimensão concreta quando se observa a aplicação desses recursos. As terras raras, por exemplo, possuem propriedades magnéticas, ópticas e elétricas utilizadas em ímãs de alta performance, baterias, catalisadores e equipamentos eletrônicos. Minerais críticos também estão presentes em cadeias como as de turbinas eólicas, sistemas de armazenamento de energia, motores e equipamentos de alta tecnologia.
O painel reuniu também Wagner Setti, Relações Institucionais e Governamentais (WEG); Marcos Berton, Gerente de Tecnologia e Inovação e pesquisador-chefe do Instituto SENAI de Inovação em Eletroquímica (SENAI/PR); e Eugênia Montes, diretora comercial de Lítio Automotivo e Exportação (Baterias Moura).
No encerramento, a diretora de Industrialização Sustentável e Transformação Tecnológica da ABDI, Neide Freitas, reforçou o papel da Agência na conexão entre os diferentes atores da agenda industrial. O diretor de Inteligência e Economia da Indústria, Randal Farah, destacou a importância de “arranjos institucionais” capazes de aproximar mercado, academia, setor de formação e poder público.
A próxima edição do Café com a Indústria será realizada no dia 23, no Rio de Janeiro, e terá como tema o setor audiovisual.