Perfil colaborativo leva produção de robôs industriais a patamar inédito

Perfil colaborativo leva produção de robôs industriais a patamar inédito

Estimativa é que o mercado global conte com 3,05 milhões de unidades instaladas até 2020

Existe um setor do mercado mundial que cresce em velocidade similar à de empresas de tecnologia como Facebook, Instagram e Google. Uma área que ainda engatinha no Brasil, mas que tem, na visão de especialistas, imenso potencial. Um nicho que respira inovação e que soube transpor para a vida prática das linhas de produção conceitos vistos em empresas como Uber e Airbnb. Trata-se da produção de robôs para uso industrial.

Segundo informações da Federação Internacional de Robótica (IFR), a estimativa é de que 1,7 milhão de novos robôs industriais sejam adquiridos em todo o planeta até 2020. Um número que ganha projeção adicional diante do fato de que, em 2015, havia um total de 1,6 milhão. Assim, de 2015 para 2020 o mercado vai dobrar, com mais de três milhões de robôs ativos.

O conceito de robôs industriais mudou radicalmente nos últimos anos. Antes eram estruturas gigantes e de serviços específicos, em geral no setor automotivo. Precisavam ser instalados em ambientes amplos, separados dos funcionários por questões de segurança. Hoje reduziram drasticamente de tamanho, caíram mais de 300% no preço, são flexíveis, trabalham em parceria com os humanos nas linhas de produção e são reprogramáveis até pela internet. Com as novas credenciais, o volume de negócios no setor foi de US$ 40 bilhões em 2016, segundo informações da IFR.

Se o viés de expansão é claro e o volume, expressivo, os protagonistas são muito concentrados: 74% do mercado mundial em 2016 era ocupado por China, Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos e Alemanha. Em 2020, a projeção da IFR é de que a China responda, sozinha, por 40% desse bolo.

Mais do que o dado quantitativo, uma forma de traçar um panorama real do índice de robotização de um país é a média de robôs ativos em relação ao número de empregados. A média mundial é de 74 máquinas a cada dez mil trabalhadores. Puxam para cima essa estatística países como a Coreia do Sul, com mais de 600 a cada grupo de dez mil, seguido por Singapura (480), Alemanha e Japão (ambos em torno de 300). O Brasil, com 11 a cada dez mil, integra o grupo dos países que ainda têm uma robotização embrionária em seu parque industrial.

“Segundo a IFR, consumimos 1,5 mil robôs no Brasil em 2016, mas o dado interessante é que se espera que o mercado nacional salte para 3,5 mil em 2020. Se a previsão se concretizar, teremos um dos maiores crescimentos percentuais do planeta nos próximos dois anos. É por isso que parte do mercado internacional nos vê como a bola da vez, como mercado emergente”, disse Denis Pineda, gerente de desenvolvimento de vendas da Universal Robots, uma das principais fabricantes de robôs industriais.

Diretor industrial no Grupo Sabó, especializado em soluções de vedação e condução para a indústria automobilística, Ricardo Teixeira Ávila pertence ao time dos entusiastas pelo uso da robótica. “Hoje temos cerca de 15 robôs no conceito de braços mecatrônicos nas plantas brasileiras, seis do tipo colaborativo, além de automações diversas e sistemas com elevado grau de manipulação robotizada”, afirmou Ávila.

Os robôs colaborativos, ou cobots, são os grandes responsáveis pelo volume ascendente de vendas mundo afora. Compactos, versáteis e reprogramáveis, funcionam em geral como braços mecânicos nas linhas de montagem. “A redução do tamanho dos robôs e de custos permite que empresas de médio porte, de 300 a 400 funcionários, passem a automatizar as linhas. E também há boas chances de crescimento geográfico. Hoje ainda há concentração no estado de São Paulo, mas já vemos um movimento gradual para outras regiões”, disse José Rizzo, presidente da Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII).

Segundo Pineda, a quebra de paradigma que permitiu aos robôs trabalhar de forma segura no meio de pessoas mudou a perspectiva da robótica. “É um mercado que cresce até 70% ao ano. A velocidade com que estamos crescendo é comparável à de empresas de internet. No nosso caso, fabricamos uns 3,8 mil robôs em 2016, 8,3 mil ano passado, temos perspectiva de 15 mil em 2018 e 25 mil em 2019”, afirmou, em referência à Universal Robots.

Novo modelo: o robô como serviço

Diante de um mercado incipiente e das dificuldades econômicas recentes do país, um novo modelo de negócio passou a ter papel importante para atrair investimentos de empresários no Brasil. Na prática, trata-se de um uso por serviço, por demanda, uma locação dos robôs para tarefas específicas na linha de produção.

"É um fator que tem potencial de acelerar o processo. Une a robótica colaborativa e novos modelos de negócio. Com o aluguel você tira o peso do investimento inicial e a incerteza do resultado. Você tem a demanda, aciona a empresa especializada, que instala a peça e te dá a assistência. Se o resultado for bom numa balança com custos trabalhistas e diante da possibilidade de realocar funcionários de um trabalho repetitivo e insalubre, você mantém o serviço. Caso contrário, tira", resumiu Bruno Jorge, coordenador de Indústria 4.0 na Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

José Rizzo, que também é CEO da Pollux, empresa especializada em fornecer tecnologias e levar a robotização a indústrias de vários portes e segmentos, explica que o modelo de negócio de certa forma bebe de fontes como Uber e Airbnb e baseia-se nas condições específicas do mercado brasileiro.

“Pega carona nessas ideias, principalmente no conceito de pagar só pela utilização, pelo serviço que você precisa naquele instante. Outra vertente importante é ter uma equipe especializada: engenheiros, programadores, profissionais de manutenção. São pessoas raras no Brasil e tendem a ser caras. Assim, em vez de cada empresa compor esse time, montamos o time e compartilhamos a expertise. Os clientes têm acesso irrestrito e ilimitado pagando um valor mensal”, explicou Rizzo.

Segundo o dirigente, uma fatia significativa das empresas com capacidade de adotar a robotização em nosso país é de origem estrangeira. E, em geral, a decisão sobre investimentos nessas multinacionais é tomada fora do Brasil, conectada à percepção dos estrangeiros sobre a nossa economia, que nem sempre é a mesma que temos.

“As sucursais, na maior parte, não têm poder de decisão local de investimento. Precisam de aprovação da matriz. E aí a visão de fora de nossa economia atrapalha, dificulta decisões de aprovação de orçamento. O que fizemos? Criamos um modelo que combatesse isso para tornar o robô industrial mais viável no Brasil”, comentou Rizzo.

A locação de equipamentos, por reduzir o volume de recursos necessários, driblaria esse empecilho, além de ser vista como “insumo operacional”, categoria com processo de decisão nas mãos dos diretores que atuam no Brasil.

Fim da insalubridade, não dos empregos

Conectar a imagem de uma linha de produção ao filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, é impulso quase inevitável ao descrever processos industriais. A ação repetitiva e incessante e o modelo de trabalho insalubre ficaram eternizados pelo ator e cineasta. Para muitos dos entusiastas da robotização, o investimento na substituição de funções desse tipo por máquinas traz uma série de benefícios, tanto para o empresário quanto para os funcionários.

“Quando visitamos as empresas, o que fazemos é identificar pessoas fazendo trabalhos de robôs: repetitivos, não ergonômicos e insalubres. A figura exposta pelo Chaplin em Tempos Modernos nem é mais permitida na legislação atual. Tanto que o empresário precisa garantir a troca das pessoas de posto a cada duas horas”, afirmou Denis Pineda.

“O que um robô colaborativo traz de positivo nesse contexto? Primeiro, tira uma pessoa de uma operação que causa dano para as costas, como pegar dezenas, centenas de caixas, e colocar num palet. Os processos de paletização exigem muita torção de coluna. Estão entre os grandes causadores de afastamento do trabalho e de criação de causas trabalhistas”, completou o gerente de desenvolvimento de vendas da Universal Robots.

Segundo os gestores, a automatização não implica desemprego. “Os países que mais adotam robôs são os que têm os menores índices de desemprego. E não é porque a robótica crie postos de trabalho. O que ocorre é que uma empresa robotizada é mais competitiva. Tem mais condições de crescer, de gerar novos negócios. Mesmo que tenha um contingente reduzido, pode abrir novas plantas e gerar novos empregos”, afirmou Rizzo.

No caso da Sabó, por exemplo, o efeito da robotização, segundo o diretor industrial do grupo, trilhou esse caminho. “O uso da robótica liberou o potencial criativo das pessoas, que passaram a monitorar o processo, registrar e aprimorar padrões. Já vivemos uma realidade de redução expressiva de acidentes de trabalho e de afastamentos, além de termos sensível ganho de qualidade e redução de perdas”, disse Ricardo Ávila.

O relatório "Robôs e o local de trabalho do Futuro", publicado pela Federação Internacional de Robótica em março de 2018, endossa o argumento. O texto cita uma pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que mostrou que as companhias que empregam tecnologia de forma efetiva são dez vezes mais produtivas do que as demais. Segundo o mesmo estudo, o desafio é avaliar onde a tecnologia pode trazer maiores retornos, bem como onde a experiência humana proporciona vantagem.

Tradição automotiva, mas potencial variado

Tanto no cenário nacional quanto no global, a indústria automotiva responde por grande parte dos investimentos em robótica. Segundo informações da IFR referentes a setembro de 2017, havia uma estimativa de 103 mil robôs instalados no setor em 2016. O crescimento em relação ao ano anterior havia sido de 6%. O setor de eletroeletrônicos foi o que mais mostrou vitalidade. Saltou de 65 mil robôs em 2015 para 91 mil em 2016, avanço de 41%.

“Ainda continuamos com uma predominância do setor automotivo, porque é uma área que historicamente investe nisso. A soldagem de carrocerias, por exemplo, há tempos não é um processo com pessoas. Mas há possibilidade clara de expansão em vários segmentos, como o de alimentos, farmacêutico, de embalagens e onde houver paletização”, afirmou Rizzo.

O relatório da IFR indica que setores como o de logística, de manufatura e de saúde tendem a ser grandes canais de uso da robótica. Um dos exemplos citados é o do Hospital Geral de Changi, em Singapura. Lá, um robô que se move de forma independente chamado Hospi faz serviços como entrega de medicamentos e carrega de forma segura amostras de sangue e urina.

“Ele é equipado com sensores para evitar obstáculos do caminho, como pacientes e cadeiras de rodas. Tem um GPS integrado para guiá-lo e todo o trajeto é acompanhado pelo pessoal do hospital. Segundo informações da instituição, o uso de robôs permitiu que os profissionais se dedicassem a funções prioritárias e ampliou a produtividade do local em 30%. Outros projetos no hospital incluem robôs interativos para entreter pacientes enquanto eles esperam por suas consultas e para deixar crianças mais tranquilas em situações de vacinação”, aponta o relatório.

“As aplicações potenciais são variadas. Estive recentemente numa grande empresa de cosméticos que fornece para Natura, Boticário e Avon. Eles tiveram um momento ruim com a crise econômica, em que saíram de 1,5 mil para 900 funcionários. Agora, enxergam que é um bom momento para crescer, mas pensam em investir em tecnologia para chegar aos níveis de produção anterior num ambiente tecnológico maior”, afirmou Denis Pineda.

Adaptações legais e garantia de segurança

Assim como criou novos paradigmas para empresas e novos modelos de negócios, a presença de robôs colaborativos criou um desafio adicional para a legislação brasileira. A robótica clássica era composta de imensos equipamentos que precisavam trabalhar de forma segregada, longe das pessoas, para evitar acidentes.

A legislação precisava de adaptações para dar garantias às empresas de que a fiscalização não iria multar investimentos em robótica colaborativa. “Uma das mudanças foi ajustar a Norma Regulamentadora número 12, do Ministério do Trabalho, para a segurança dos trabalhadores”, afirmou Bruno Jorge, coordenador da indústria 4.0 na ABDI. “A gente tenta destravar questões dessa natureza”.

O ajuste veio a partir da Nota Técnica 31, de fevereiro de 2018, que trouxe conceitos, atribuições e condições para o uso dos robôs colaborativos. “A robótica colaborativa tem apenas dez anos por aqui, não havia legislação no Brasil. Isso nos trouxe uma segurança jurídica importante”, disse Denis Pineda, da Universal Robots. Outra garantia estratégica, segundo ele, foi a isenção definitiva de impostos de importação. “A fabricação não existe no Brasil. As fábricas são centralizadas, em especial na Alemanha e na China”, justificou.

Com 22 anos de vivência no setor, José Rizzo destaca que os robôs industriais mais recentes são munidos de sensores que ampliam as condições de segurança. “É como se eles enxergassem, sentissem o ambiente, mesmo que não seja um local 100% preparado para ele. São robôs capazes de pegar objetos com posição não muito bem definida. Capazes de exercer força dentro do limite que dermos a ele”, afirmou.

“Não presenciamos qualquer incidente ou acidente desde a instalação dos robôs colaborativos. Temos auditorias rotineiras, checagem de dispositivos uma vez ao turno, sem exceção. As abordagens são sempre com a segurança do trabalho”, completou Ricardo Ávila, da Sabó.

Segundo Bruno Jorge, outra ação governamental, essa via ABDI, é a criação de um edital para projetos que envolvam robótica nas soluções de problemas. “Vamos aportar R$ 300 mil para desenvolvimento de negócios que gerem um estudo de aplicação dessa tecnologia”.

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