ENCONTRE AQUI

Aluga-se energia solar

Empresa faz permuta com Companhia Elétrica de Brasília, reduz custos dos clientes e entrega produto sem necessidade de instalação de placas

Gabriel Fialho | 23/08/2018

As empresas que desejam fugir das variações dos preços das contas de luz estão mudando de fonte de energia, da elétrica para a solar. E para isso, os empreendimentos não necessitam ocupar nenhum centímetro de seus espaços para instalar as placas. No Distrito Federal, a UFV Origem I propõe um modelo de negócio diferente: a usina fotovoltaica aluga as placas instaladas em uma área de dois hectares de uma fazenda em Planaltina, a 40 km do centro de Brasília, e em troca, os clientes recebem descontos na fatura mensal da distribuidora de energia.

“Na locação, o valor é menor do que a energia da rede. O aluguel é definido sem levar em consideração as bandeiras. Se porventura houver uma bandeira amarela, ou vermelha 1 ou 2, o cliente estará economizando mais ainda. Além disso, o contrato que nós fazemos é reajustado pela inflação e as tarifas de energia têm mostrado, historicamente, reajustes maiores que a inflação”, destaca Otavio Segatto, engenheiro e sócio da UFV Origem I.

A usina atende empreendimentos com gastos de energia elétrica bem variáveis, entre três mil e cem mil reais. A estimativa da própria UFV Origem I é que a economia dos empresários seja entre 10 e 15% dos valores pagos às distribuidoras elétricas. O negócio se tornou viável em 2015, após mudança na Resolução Normativa nº 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que passou a permitir trocas entre geradores e distribuidores de energia.

“A resolução mudou e permitiu esta nova modalidade. Ela possibilita que as empresas possam gerar sua própria energia sem ser nas coberturas de suas edificações. É uma solução para quem não tem espaço, ou não é proprietário do imóvel, não tem condições ou interesse de investir nesta área. Desta forma, a empresa aluga uma fração da usina e tem suas despesas de energia reduzidas”, enumera Segatto.

Outra vantagem para o cliente é que ele não vai necessitar comprar equipamentos nem pagar por manutenção, que é feita regularmente pela própria equipe da UFV Origem I. A engenheira Thaís Garcia explica que os procedimentos são simples e com menos parâmetros para analisar em comparação a outras fontes de energia. “A manutenção consiste basicamente na limpeza das placas, em não deixar sujeira acumular porque prejudica a nossa geração. Na operação, é só uma questão de meteorologia, dos medidores no quadro de energia principal e dos inversores, checar se estão todos ligados corretamente e se apresentam algum código de erro”, detalha Garcia.

Viabilidade e perspectiva

O Brasil é um dos países com maior potencial de geração de energia solar no mundo. No entanto, este tipo de fonte ainda representa muito pouco no total da nossa matriz energética. “A participação da energia solar é pequena, menos de 1%. Temos cerca de 1 Gigawatt instalado, mas temos a oportunidade de crescer tanto na geração de usinas solares, quanto na geração distribuída”, analisa Jorge Boeira, líder de projetos em energias renováveis da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Pelas projeções do Ministério de Minas e Energia, este percentual deve chegar a 4% até 2024. A viabilidade econômica da energia solar, com custos de instalações das placas em queda, tem impulsionado também projetos em edificações menores. Sem contar que a vida útil do equipamento pode chegar a 30 anos. Este viés de crescimento já é experimentado pela UFV Origem I, que está com toda a capacidade contratada, com acordos que variam por períodos entre cinco e dez anos, com menos de dois meses após ser inaugurada.

Um dos clientes da Origem é o Instituto de Medicina e Psicologia Integradas (Impi), em Brasília, cujo sócio Dalfran Leandro visitou a usina em Planaltina. “Nós temos 120 placas que suprem 100% da demanda do Impi, que é ar condicionado, iluminação e alguns equipamentos utilizados no instituto. A energia solar se tornou economicamente viável. Fizemos um investimento que pretendemos pagar em quatro anos e teremos ainda mais 20 anos de produção de energia de forma gratuita, além de ajudar o meio ambiente”, comemora Leandro.

Ao usar energia solar, outras fontes como as usinas térmicas ou os combustíveis fósseis, bem mais poluentes, não são usados. A geradora fotovoltaica não gera resíduos nem poluição. Outra prática sustentável aliada ao projeto da Origem é um meliponário, com oito tipos de abelhas, reunidas em 16 colmeias. O objetivo é ajudar na preservação de espécies sem ferrão, nativas do cerrado e que correm risco de extinção.

Funcionamento

As 3.344 placas instaladas na usina UFV Origem I são capazes de gerar até 1 MW de potência, o suficiente para abastecer 880 residências. As placas são compostas de células de silício policristalino, de alto grau de pureza. Em uma das faces da placa há elétrons em excesso e do outro há espaços vazios. “Quando a luz solar incide no material é produzida uma corrente, pela diferença de potencial. Os elétrons começam a sair do lado onde há excesso de elétrons e vão para outro. Este caminho gera a corrente que a gente captura por meio dos filetes que estão na placa”, explica Segatto.

Após este processo, a energia se concentra em um cabo que sai da placa e vai para um inversor que vai transformar a corrente contínua em alternada, a mesma usada nas residências, empresas e equipamentos. A energia vai para uma subestação na própria usina e é levada para a rede da concessionária, no caso do Distrito Federal a Companhia Elétrica de Brasília (CEB), que computa quanta energia foi injetada e abate o valor na conta de luz.