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De criptomoeda a eleição, blockchain promete mudar relações de confiança

Tecnologia permite que transações e compartilhamento de dados tenham nível elevado de segurança e transparência. Mercado global deve chegar a US$ 23,3 bilhões em cinco anos

Gabriel Fialho | 26/03/2019

O blockchain vem adquirindo cada vez mais importância no mundo dos negócios. A tecnologia digital, que traz segurança ao registrar e compartilhar com outros usuários qualquer transação, ficou mais conhecida a partir da disseminação das criptomoedas. Mas este é apenas um dos usos da ferramenta. A consultoria Markets and Markets estimou em 1,2 bilhão de dólares o mercado de blockchain em 2018 e projeta que ele chegará a 23,3 bilhões de dólares em 2023.

Na Suíça e na Estônia, por exemplo, os cidadãos podem votar sobre algumas questões da administração pública pela internet. Enquanto na Suécia, o registro de imóveis permite a comercialização dos bens usando o modelo de contrato inteligente. Estes processos são validados por meio do blockchain.

“Vivemos uma crise de confiabilidade. Mas, com o blockchain podemos fazer trocas mútuas, ou seja, ao mesmo tempo que passo o dinheiro, recebo o contrato. Pela primeira vez podemos confiar uns nos outros, numa colaboração mediada por um código”, exalta Celso Avancini, especialista de mercados e capitais, que trabalha em uma financeira de criptomoedas.

Autenticação digital

Os entusiastas da nova tecnologia garantem que ela é inviolável e traz transparência aos processos em que é aplicada. “O blockchain vai criar uma disrupção no modelo em que atualmente estão baseados os cartórios, pois ele age como um livro de contas digital, confiável, imutável, visível para todos os participantes e que mostra todos os elementos da transação de forma transparente e por um custo extremamente baixo”, prevê Avancini.

O blockchain é um código com fonte aberta, em que qualquer pessoa pode baixá-lo e executá-lo para desenvolver novas ferramentas para o gerenciamento de transações online. Estas movimentações são autenticadas e deixam um histórico, um rastro de modificações. Trata-se de uma lista crescente de registros - os blocos -, com dados distribuídos e encadeados usando criptografia.

“É o conceito de tecnologia de transações distribuídas, a ideia de se ter um arquivo, ou bloco, onde as transações são gravadas sequencialmente e que não é possível apagá-las”, define o cientista da computação Paulo Simões, que trabalha para uma renomada empresa de tecnologia dos Estados Unidos.

Para ele, o objetivo do blockchain é simplificar as transações, eliminando a necessidade de intermediários. “Estou num mundo digital que exige confiança, confiabilidade e transparência. Era necessária uma tecnologia que impedisse um ‘gasto duplo’. Vamos pensar no dinheiro, ou no contrato. Se eu te passo o dinheiro, em papel, você pega e sabe que está com ele. No meio digital, o que me impede de dizer que eu dei o dinheiro digital para A e também dei o mesmo dinheiro para B?”, exemplifica Simões.

Confiança

A segurança e transparência da tecnologia é garantida pelo sistema de validação, que tem que ser feita por todos aqueles com acesso ao bloco. “Cada um consegue ver o mesmo banco de dados, se o banco de dados do seu vizinho está corrompido, você está vendo. Este é o controle. A validação é por consenso, não é pela maioria. Se tem um dado divergente para alguém, não há consenso nem validação. Todo mundo tem que ‘falar’ que aquilo que está no bloco é igual ao de todo mundo. Caso esteja igual, fecha o bloco e está validado”, explica Fabson Vogel, analista de Produtividade e Inovação da ABDI.

O blockchain, a internet das coisas e a inteligência artificial são algumas tecnologias de vanguarda que vão gerar alto impacto social nos próximos anos. Para diversas soluções elas serão usadas de forma integrada, como no projeto de logística do cientista da computação Lucas Teixeira. O modelo de negócio proposto por ele e outros dois sócios é o de rastreamento do transporte de cargas que merecem cuidado especial. A ideia é permitir o monitoramento de temperatura, umidade e outras variáveis durante todo o caminho e não apenas nos pontos de partida e chegada.

“Fizemos um mapeamento e alguns mercados, principalmente de alimentos, não conseguem comprovar como o produto é transportado. Como garantir que a câmara frigorífica do caminhão ficou em 12 graus Celsius durante todo o trajeto? Usando sensores, que a cada dez minutos captam a informação, e usando o blockchain garantimos a consistência da informação”, explica Teixeira.

Cidades inteligentes

As possibilidades abertas pelo blockchain também serão essenciais para o desenvolvimento de soluções em projetos de cidades inteligentes. “Uma vez que eu tenho vários dispositivos gerando informação, sinais e luminárias inteligentes, por exemplo, tenho que ter um mecanismo que me permita acreditar que ela é confiável e segura, que a informação não vai sofrer mutações à medida que o tempo passa. O blockchain vai resolver esse tipo de questão”, analisa Talita Daher, coordenadora de Difusão Tecnológica da ABDI.

O conceito de cidades inteligentes inclui segurança cibernética, qualidade técnica dos produtos, interoperabilidade e o conceito de rede distribuída de informação ponto a ponto, que é uma rede que exige um mecanismo de validação de conteúdo. “Todos esses sistemas demandam confiança, ou seja, o conceito do blockchain, que vem por trás dessas tecnologias”, avalia Daher.

No Brasil, algumas aplicações de blockchain já estão sendo feitas e, de acordo com pesquisa realizada pela consultoria IDC em 2018, o país é o 11º no mundo no desenvolvimento e uso da tecnologia. “No ano passado, houve um crescimento exponencial das comunidades e empresas investigando sobre o tema. Empresas de diversos ramos, inclusive públicas, como o BNDES, estão desenvolvendo projetos com blockchain”, aponta Simões.

O Banco Central, a Receita Federal e a Dataprev são outras instituições que têm investido no blockchain, assim como empresas dos ramos farmacêutico, alimentício e de departamentos. “Prontuário médico, notas do sistema de educação, currículo lattes, pesquisa, voto são dados que devem ser preservados. Tudo que precisa de dados robustos, imutáveis, seguros é onde o blockchain vai entrar. Ele vai reduzir custos de qualquer banco de dados”, conclui Vogel.