Há décadas imaginava-se que o carro do futuro voaria. As produções na TV e no cinema ajudavam a alimentar esta ideia. Mas, se nos próximos anos as cidades não estarão com os céus tomados por automóveis, a mobilidade urbana será diferente da que conhecemos hoje. Elétricos, autônomos e compartilhados são as características do carro do futuro que as principais montadoras do mundo estão desenvolvendo.
“Na verdade, a gente não está falando nem de futuro, estamos falando de hoje, que é o carro ser cada vez mais autônomo, trazer conceitos de mobilidade e eletricidade. Você não consegue fugir destes três pontos principais: um carro que seja autônomo, que permita às pessoas se locomoverem de maneira cada vez mais adaptadas a elas e tudo isso com base num guarda-chuva elétrico”, aponta Rogério Montagner, gerente da Mercedes Benz para a América Latina.
“O carro do futuro na concepção da Toyota é um carro conectado, eletrificado, com funções de automação. Dependendo da demanda do mercado e dos consumidores ele vai ter uma combinação destas características”, acrescenta Anderson Suzuki, gerente geral de comunicação da marca.
No Salão do Automóvel deste ano, em São Paulo, estas tendências foram mostradas em protótipos e também em lançamentos que estarão nas ruas de diversos países no início de 2019. O primeiro passo está sendo dado com os carros elétricos. “O elétrico vai criar um novo ecossistema. Da mesma maneira que há 132 anos inventamos o carro a combustão, hoje a gente tem um processo em curso. Desde que a gente nasce, sabemos o que é um carro, para que ele serve e como mantê-lo funcionando. A eletricidade vai no mesmo caminho, sendo ampliada até o ponto que fará parte do nosso dia a dia”, projeta Montagner.
Na capital paulista, a Nissan lançou o Leaf e a Chevrolet o Bolt, ambos 100% elétricos. “Queremos usar essa base elétrica para a criação do carro autônomo. A gente tem a expectativa que no Japão, Europa e nos Estados Unidos, mercados mais maduros, a partir de 2022 os autônomos estejam disponíveis comercialmente”, afirma Alexandre Carvalho, coordenador de imprensa da marca japonesa.
De acordo com Paulo Santos, gerente de produtos da Chevrolet, a visão futura da empresa é baseada em três zeros: emissões, congestionamento e acidentes. “O primeiro passo para isso, o zero emissões, é investir em um portfólio 100% elétrico, o Bolt é esse primeiro passo”, afirma Santos. “A gente sabe que grande parte dos acidentes são gerados por falha humana, investimos em tecnologia de autônomo para no futuro não apenas reduzir os acidentes, mas até o próprio trânsito”, completa.
Outro modelo que estará disponível em breve é o Urban EV da Honda que chega ao mercado europeu no próximo ano. “Ele traz a eletrificação e outras tecnologias para se ter um ambiente mais amigável. Na parte externa do carro, há um painel de mensagens que permite que o motorista converse com outros motoristas e com os pedestres”, explica Rodrigo Leite, assessor de imprensa da marca japonesa.
Protótipos
Em uma sociedade em rede, o automóvel passa a ser mais um aparelho para se comunicar com outros equipamentos e pessoas. A francesa Renault levou ao Salão o Symbioz, um protótipo elétrico, autônomo e conectado. O conceito do carro é desenvolvido para ser uma sala de estar sobre rodas. Os bancos podem virar, quando se coloca no modo de direção autônoma, e sair da posição convencional para ficarem dispostos frente a frente, o que possibilita que os passageiros aproveitem a conectividade do carro.
Além de carregar na tomada, ter painéis touch screen, retrovisores com câmeras ao invés de espelhos, possibilidade de enviar mensagens para outros motoristas, ferramentas de localização, os carros usam Inteligência Artificial (IA) e reconhecimento facial. A Toyota aposta nestes elementos em seus protótipos.
“Eles trazem uma série de conceitos, Concept I, i de inteligente, de futuro, de evolução. O veículo maior trabalha com IA, através dos movimentos faciais e expressões do motorista, ele acaba aprendendo e adaptando à sua maneira de dirigir”, detalha Anderson Suzuki. Também estavam expostos no estande da marca um patinete elétrico e um automóvel para pessoas com deficiência, com facilidades de acesso e direção para cadeirantes.
“O carro autônomo vai conversar com as vias, as placas, os outros carros, interagir de forma que se ele vir outro carro ele para, não vai bater. É mais comodidade para os ocupantes fazerem outras coisas”, exemplifica Alexandre Carvalho da Nissan.
Mobilidade como serviço
Os veículos elétricos serão a base para os autônomos, que possibilitarão outras formas de mobilidade urbana. Com a possibilidade de andarem sozinhos pelas ruas, ao invés de ficarem parados por longos períodos, os carros poderão ser usados por mais pessoas, diminuindo os congestionamentos. Desta forma, a propriedade passa a ser compartilhada.
“A Mercedes Benz trabalha, em termos globais, com o conceito que é deixar de ser produtora de carros, para ser uma provedora de mobilidade. Há experiências na Europa com o sistema ‘Car to Go’, com mais de 14 mil carros, com frotas completamente elétricas, e isso é uma evolução desse ecossistema”, afirma Rogério Montagner.
“Hoje vendemos nossos carros via rede de concessionárias, eventualmente no futuro, podemos vender o serviço de mobilidade, não o produto. São novos modelos de negócios que a Toyota está trabalhando com parceiros”, revela Anderson Suzuki.
As montadoras estão se preparando para passar a oferecer serviços e outros tipos de tecnologia, inclusive para compensar uma possível queda na venda de carros decorrente do compartilhamento dos veículos.
“Estaremos oferecendo o carro da mesma maneira. E por mais que você tenha uma queda nas vendas, serão ofertados serviços de conexão. As montadoras estão indo para esta conectividade: ‘Ah quero ir para um restaurante’, então você vende o espaço no carro para algum restaurante, ou empresa de cinema… vamos poder vender espaços publicitários e serviços dentro do carro”, analisa Alexandre Carvalho da Nissan.
“A Honda é mais que uma empresa de automóveis, ela é de tecnologia. Para a marca é muito importante fazer estudos, seja com os carros conceito, motocicletas e robôs”, pontua Rodrigo leite.
O ritmo de implantação dos serviços dependerá de cada mercado específico, legislação nacional e comportamento do consumidor. “A gente tem vários estudos para descobrir qual o jeito do brasileiro e do latino americano para colocar o pé neste mundo de mobilidade, compartilhamento de carros e automação”, completa Montagner.
Na opinião de Paulo Santos, o primeiro passo foi dado com o aumento da aceitação do compartilhamento de carros. A Chevrolet tem testado ferramentas para implantar o serviço. “Temos uma startup rodando um piloto no Brasil de compartilhamento de carros. A gente não tem uma previsão para início desse serviço no Brasil, mas isso já é uma plataforma disponível nos Estados Unidos, por exemplo”, conclui.