ENCONTRE AQUI

Programa da ABDI abre portas do mercado nacional para indústria portuguesa

O inverso também é válido e startups brasileiras terão entrada na Europa. Confira entrevista com CEO da empresa têxtil lusitana, Gil Pereira, que compara os ecossistemas de Brasil e Portugal

Gabriel Fialho | 09/12/2019

Uma empresa de Portugal, com mercados na Europa e nos Estados Unidos, vai entrar no Brasil por meio do Programa Conexão Startup Indústria 4.0 da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). A My Shirt se conectou a duas startups nacionais, a Eco Têxtil e a Fastdezine, que também terão uma porta de entrada em outros países.

O CEO da indústria têxtil portuguesa, Gil Pereira, visitou a sede da ABDI e conversou sobre as expectativas em relação ao programa, as oportunidades de negócios que as conexões com as startups podem gerar, além das vantagens e desafios em trabalhar com o ecossistema brasileiro. A My Shirt pretende encontrar, em conjunto com os empreendedores do Brasil, soluções para reciclagem e comércio digital.

Essa é a segunda edição da iniciativa da ABDI, que desta vez conta com a participação de startups e indústrias de Portugal. O programa distribuiu um total de R$ 4,72 milhões em prêmios.

Quais tecnologias 4.0 a My Shirt utiliza?

Nós estamos iniciando com a customização. Esse é o processo que nos interessa e que está mais adequado à nossa indústria, porque todos os outros processos estão neste guarda-chuva. Pensamos que a customização será o futuro e será o caminho que o nosso negócio vai seguir.

Essa produção individualizada é uma tendência mundial?

Nós temos a ideia que, para além de ser customizada nas medidas, a produção de camisas também será customizada em níveis que envolvem a nanotecnologia. Como tecidos anti transpirantes, ou que tenham algum tipo de medicação para uma pessoa específica. Nós entendemos que a customização vai passar pela questão das medidas, que será a primeira fase, e numa fase posterior, pela questão da nanotecnologia.

A My Shirt já faz algum tipo de customização nos produtos?

Nós fazemos customização de medidas, ou seja, nos tamanhos das camisas. Temos tecidos com peculiaridades, um cheiro próprio, por exemplo. Eu entendo que no futuro teremos características mais importantes no uso cotidiano.

Se a gente pensar que hoje temos sapatilhas ou camisas com interface tecnológica e atendimento em bluetooth, e que desde sempre, todos nós usamos camisas, se percebermos que mais cedo ou mais tarde esta será uma tendência, a gente irá atualizar com essas características.

Como a My Shirt conheceu o programa Conexão Startup Indústria 4.0?

Nós conhecemos a ABDI através de uma pesquisa que eu fiz, de um instituto no qual eu faço parte, que é o CEiiA [Centro de Engenharia e Desenvolvimento], e tivemos conhecimento sobre o Programa [Conexão Startup Indústria 4.0]. Depois nos aprofundamos e entendemos qual a realidade e dimensão dele. Demonstramos interesse em ter as startups conosco e, dentro desta lógica em que nós queremos fazer a personalização dos nossos produtos, fazia todo sentido incorporar empresas que tivessem como acrescentar valor tecnológico ao nosso negócio.

Vocês já tinham trabalhado com startups?

Nós conhecíamos alguns desenvolvimentos feitos por startups, mas esse é nosso primeiro envolvimento com startups.

Como está sendo esse diálogo com as startups brasileiras?

Nós tivemos uma primeira aproximação por videoconferência, onde soubemos quais as características de cada uma das startups e quais poderiam se enquadrar no nosso objetivo futuro. Depois, tivemos uma apresentação de cada uma delas. E definimos qual era a possibilidade que tínhamos para interagir com as duas startups que podíamos escolher, de forma que no futuro, elas integrassem o nosso negócio. Não queremos que as startups sejam utilizadas para criar o negócio e depois abandonadas. Esse não é o nosso interesse. Queremos que elas façam parte do nosso negócio, que no futuro passem a fazer parte da solução que a gente apresentar ao consumidor.

Quais necessidades que a My Shirt possui e que identificou nestas startups a capacidade de dar as soluções?

Nós temos duas startups que abordam duas temáticas diferentes. Uma que aborda a questão das vendas online, do e-commerce, tanto que a plataforma que eles desenvolvem inclui o marketing digital. A outra envolve uma temática que é muito importante para nós que é a reciclagem. Então, nós envolvemos duas startups que acabam por nos trazer soluções nessas duas áreas. É nosso interesse que isso faça parte de uma espécie de economia circular, que seja mais justa e que seja mais responsável.

Que tipo de materiais poderiam retornar nesta economia circular?

Na nossa cadeia de produção nós só usamos fibras naturais, portanto 100% algodão, para serem retornadas e reutilizadas. A forma de fazer esse reuso é o que vamos trabalhar.

E há algum receio em trabalhar com startups brasileiras, até pela questão da distância?

O fato de falarmos a mesma língua é um ponto de aproximação. Hoje, com as tecnologias que temos ao nosso dispor, conseguimos falar com facilidade por videoconferência. É sempre mais difícil quando envolve hardware, ou seja, desenvolvimento do produto, que depois tem que ser importado. Não era a nossa ideia envolver essa questão de hardware, porque sabemos que isso poderia nos dificultar um pouco em termos de operação, mas a oportunidade nos pareceu única e achamos interessante.

Como você analisa o ecossistema de startups no Brasil e em Portugal?

Eu entendo que nós, em Portugal, e aqui no Brasil, temos que dar força e energia para que as startups sejam cada vez mais criadoras e capazes. E que haja alguém que se preocupe e apoie o desenvolvimento das novas ideias. Eu acho que o foco tem que estar aí.

Qual o principal benefício em trabalhar com startups?

A startup traz uma energia diferente, porque traz uma visão do produto ou do processo fora da caixa. Quem está envolvido nos processos, ou produtos, sabe que existem dificuldades, mas muitas vezes não conseguem ter a clareza ou facilidade de resolver o problema. E para quem chega de fora da caixa é mais simples e torna até mais interessante o desenvolvimento e o produto final.

E quais são os desafios?

Os desafios são os principais para qualquer indústria e que acho que são os justos, que é nunca permitir que as startups saiam do seu foco. Quando existe um propósito de desenvolvimento, que ele seja cumprido dentro do rigor que uma indústria tem.

Quais as suas expectativas quanto ao programa?

O nosso relacionamento. Nós temos uma conversa franca e compartilhada com as stratups, acabamos por compartilhar com eles nossas ideias e projetos. Isso também vai alavancar os projetos e ideias das startups, esse é o nosso objetivo.

Qual a sua avaliação sobre a iniciativa de conectar indústrias e startups, inclusive de dois países?

Eu acho que isso tem muito valor, porque afinal de contas a ABDI acaba por demonstrar que está aberta. E demonstra para as startups que existe mercado para além das fronteiras brasileiras, assim como para as indústrias. Quando nós queremos trabalhar e ter sucesso no mercado global, não há outra abordagem senão uma abertura também ao exterior. Então acho que esta iniciativa tem todo mérito e deve ser desenvolvida cada vez mais.

Em Portugal existe um programa semelhante?

Existe na Europa. A Europa funciona como um bloco, que libera fundos para que os países depois consigam fazer iniciativas com outros países. São desenvolvidos fundos para promover iniciativas para que tenha pelos menos duas empresas, uma de cada país, e acaba por ser uma forma de abertura ao exterior, para o desenvolvimento nas mais diversas áreas no mercado europeu.

Esta iniciativa da ABDI é interessante e nos pareceu diferente. Ela abre a possibilidade de entrar no mercado brasileiro, que nós não conhecíamos. Também acontece o inverso. As startups brasileiras entram no mercado europeu e esse foi uma das nossas motivações para entrar no programa.