Um desfile com marcas autorais do Distrito Federal marcou o lançamento, na sexta-feira (27/3), do Indústria da Moda DF, projeto da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Distrito Federal (Senai-DF). A iniciativa vai investir R$ 3,95 milhões em qualificação profissional, inovação e fortalecimento da cadeia produtiva do vestuário na capital.
Do total, R$ 3,46 milhões serão aportados pela ABDI, enquanto R$ 481,9 mil correspondem à contrapartida do Senai-DF.
Realizado na unidade do Senai em Taguatinga, o desfile reuniu marcas locais como Dane-se, Koia, Lucila e Sun Rosa, evidenciando a criatividade da moda produzida no DF. O evento marcou simbolicamente o início de um programa que busca enfrentar gargalos do setor, como a demanda por mão de obra qualificada e a necessidade de modernização produtiva.
Segundo o Sindicato das Indústrias do Vestuário do Distrito Federal (Sindiveste-DF), há um déficit de cerca de 1.800 trabalhadores qualificados, especialmente costureiras industriais. Ao mesmo tempo, a demanda cresce: em 2024, o varejo de moda no DF avançou 5,8%.
Para o presidente da ABDI, Ricardo Cappelli, o projeto nasce justamente para responder a esse cenário.
“A proposta é ampliar a oferta de mão de obra qualificada, modernizar o chão de fábrica e estimular a criação de novos negócios, conectando formação técnica, inovação e prática profissional”, afirmou. Segundo ele, a capital tem potencial para se tornar referência no setor. “O Distrito Federal reúne criatividade, capacidade produtiva e um mercado consumidor forte. Tem todas as condições de transformar a indústria do vestuário em uma das mais inovadoras e sustentáveis do país.”
Cappelli também destacou o impacto social da iniciativa.
“Estamos falando de geração de renda, de autonomia para mulheres, de abrir oportunidades. Vontade de trabalhar existe, o que muitas vezes falta é oportunidade”, disse.
Participaram do evento o presidente da Federação das Indústrias do Distrito Federal (Fibra) e do Conselho Regional do Senai-DF, Jamal Jorge Bittar, e o diretor regional do Senai-DF, Marco Secco.
Bittar destacou o potencial da indústria local. “O DF tem uma veia criativa muito forte, e o setor do vestuário reúne elegância, capacidade produtiva e potencial de geração de valor agregado. O que vimos hoje é apenas uma amostra do que podemos construir.”
A presidente do Sindiveste-DF, Walquiria Aires, afirmou que o projeto deve fortalecer diretamente as empresas do setor.
“Vamos ampliar a capacitação especializada e a gestão dentro das empresas para que elas possam expandir seu mercado de atuação. Queremos levar as marcas do DF para os grandes eventos da moda do país e do exterior.”
Na ponta, a expectativa é de transformação concreta. Para Laila Duramiid, de 33 anos, ex-aluna do curso de costura industrial do Senai Taguatinga, a iniciativa aproxima formação e mercado.
“Falta capacitação e preparo das empresas para lidar com tecnologia. Colocar alunos dentro das empresas, com supervisão, faz diferença para quem aprende e para quem contrata. Eu mesma quero voltar a estudar”, disse.
Hoje, o setor do vestuário no DF reúne cerca de 6 mil empresas, concentradas principalmente em Taguatinga, Ceilândia e Plano Piloto. Juntas, essas regiões somam 57% dos estabelecimentos. De acordo com o sindicato, 70% das empresas são microempreendedores individuais e quase metade possui entre um e cinco empregados, um cenário que revela baixa escala produtiva e desafios de profissionalização.
Qualificação profissional gratuita
O programa oferecerá cinco cursos profissionalizantes gratuitos, com carga total de 420 horas, nas áreas de costura industrial, costura sob medida, modelagem computadorizada, moda praia e corte de peças. As aulas serão realizadas nas unidades do Senai em Taguatinga e no Gama, além de institutos comunitários parceiros em diferentes regiões administrativas do Distrito Federal.
No primeiro edital, disponível no site da ABDI, estão abertas 80 vagas para os cursos de costureiro industrial, com 200 horas, e de costureiro sob medida, com 260 horas. As aulas têm início previsto para maio. Para participar, é necessário ter no mínimo 16 anos e ensino fundamental completo. Ao final da formação, os alunos receberão certificado do Senai-DF.
As inscrições podem ser feitas online até 28 de abril. Caso a demanda supere o número de vagas, os candidatos serão organizados em lista de espera, conforme a ordem de inscrição.
A iniciativa tem como público prioritário pessoas em situação de vulnerabilidade, com foco na geração de renda e na inserção produtiva. Até 10% das vagas são reservadas para pessoas com deficiência.
Formação conectada ao mercado
Após a conclusão dos cursos, 50 alunos poderão participar de vivências práticas no setor. Na modalidade empreendedora, os participantes irão desenvolver, em grupo, uma nova marca ao longo de três meses, com apoio do Senai-DF em todas as etapas, da concepção à comercialização. Já na vivência profissional, os alunos poderão atuar diretamente em empresas de confecção por um período de um mês.
Em ambas as modalidades, os participantes receberão auxílio financeiro de R$ 552 a cada 80 horas.
O projeto também prevê a criação de um marketplace digital para a comercialização das peças produzidas durante a formação e nas atividades empreendedoras.
Modernização da indústria
Além da qualificação, o projeto inclui consultorias e apoio técnico para empresas do setor, com foco na modernização dos processos produtivos, modelagem digital e inovação.
Os institutos comunitários parceiros receberão equipamentos de última geração, como máquinas de costura industriais, botoneiras eletrônicas, caseadeiras, mesas de corte e passar industriais, além de manequins profissionais. Caso mantenham a oferta de cursos gratuitos após o término do programa, os equipamentos poderão permanecer nas instituições.
As empresas e institutos sociais, assim como as pessoas interessadas em participar do projeto, devem se inscrever pelo site: www.abdi.com.br/industriadamoda.
Foto: Helio Montferre/ABDI