Reciclagem de automóveis é tema de encontro em São Paulo 

Reciclagem de automóveis é tema de encontro em São Paulo 

ABDI debate com indústria, empresários e fornecedores de equipamentos e tecnologias vantagens de transformar veículos em fim de vida em fonte de materiais, investimentos e novos negócios

O diretor de Inteligência e Economia da Indústria da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Randal Farah (foto, à esq.), e o gerente da Unidade de Novos Negócios da Agência, Samy Kopit, participaram nesta sexta-feira (14/8), em São Paulo (SP), do ReciclaAuto, encontro nacional da indústria de desmontagem, reciclagem automotiva, reaproveitamento de peças e destinação de veículos em fim de vida. 

Idealizado pela Associação Brasileira de Reciclagem Automotiva (ABCAR), o evento reúne, até este sábado, representantes de entidades setoriais e públicas, como detrans e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), empresários e fornecedores de equipamentos e tecnologias vinculados às políticas de mobilidade, sustentabilidade, segurança veicular e economia circular. 

A mensagem levada pela ABDI ao ReciclaAuto tratou da reciclagem veicular não apenas como uma política de resíduos, mas como política industrial, tecnológica e de descarbonização. Uma cadeia estruturada que pode gerar investimentos, novos modelos de negócio, empregos, matérias-primas secundárias e maior competitividade para a indústria brasileira. 

“As empresas de desmontagem constituem um elo operacional indispensável para o funcionamento dos programas governamentais voltados para a Reciclagem veicular e renovação da frota”, destaca Randal Farah, em referência a programas como Renovar, coordenado pela Agência, e Mobilidade Verde e Inovação (MOVER), do qual a ABDI é uma das entidades articuladoras. 

“São elas que recebem os veículos retirados de circulação, promovem sua desmontagem ou destruição, identificam os componentes reutilizáveis, encaminham materiais para reciclagem e asseguram a destinação ambientalmente adequada dos resíduos e rejeitos.” 

Segundo o diretor, a aproximação institucional com esse segmento é  necessária para que a ABDI conheça a capacidade operacional do setor, suas limitações tecnológicas, os custos envolvidos, as assimetrias regulatórias existentes e as condições necessárias à ampliação dos programas. 

Ao passo que o Renovar atua sobre a retirada dos veículos antigos e a organização de sua destinação final, o MOVER estabelece requisitos relacionados à eficiência energética, à reciclabilidade, à segurança e, progressivamente, à pegada de carbono dos veículos comercializados no País.  

“A integração dessas duas políticas permite abordar o ciclo de vida automotivo de forma sistêmica, desde a fabricação e utilização até o desmonte, reaproveitamento e reciclagem”, conclui o diretor da ABDI. 

Convergência de processos 

As duas iniciativas foram lembradas no ReciclaAuto em paineis como Programa MOVER: Transformação e Futuro da Mobilidade no Brasil – Impactos e oportunidades para o mercado automotivo.  

A discussão, que contou com a participação de Samy Kopit, reforçou a mudança de perspectiva: o veículo em fim de vida deixa de ser visto apenas como sucata e passa a representar uma fonte de peças, componentes e matérias-primas capazes de voltar ao processo produtivo.  

“O eixo da participação da ABDI no encontro foi o novo momento da reciclagem automotiva brasileira, que entra em uma nova etapa marcada pela convergência entre política industrial, descarbonização, economia circular, inovação e rastreabilidade”, afirma o gerente. 

“Trata-se de incorporar efetivamente a reciclagem ao ciclo da indústria automobilística. Nesse novo ciclo, o fim da vida útil de um veículo deixa de representar o fim de uma cadeia produtiva para se tornar o começo de outra.” 

Forte vetor dessa transformação, o MOVER associa competitividade industrial, inovação tecnológica e descarbonização ao introduzir requisitos crescentes de reciclabilidade e mecanismos que estimulam a recuperação de materiais provenientes de veículos em fim de vida. 

A partir de 2027 entram em vigor as primeiras metas para veículos leves, com percentuais mínimos de 80% da massa reutilizável ou reciclável e 85% reutilizável ou recuperável. Para novos projetos, os requisitos chegam a 85% e 95%, patamares que serão estendidos a todos os veículos leves em 2030. 

Rastreabilidade 

A agenda se conecta diretamente ao Programa Renovar, voltado à renovação da frota e à reciclagem veicular. A ABDI desenvolve experiências-piloto que envolvem 32 ônibus e que permitem testar processos de desmontagem e recuperação de materiais, identificar gargalos e produzir conhecimento para o aperfeiçoamento da política. 

Nesse novo ambiente, a rastreabilidade é igualmente fundamental.  

A experiência da ABDI com o Recircula Brasil demonstra como tecnologias baseadas em documentos fiscais, balanço de massa e verificação independente podem acompanhar materiais ao longo da cadeia dando transparência e credibilidade à circularidade. Essa experiência constitui uma referência importante para a estruturação de soluções aplicáveis à economia circular automotiva. 

No entendimento da Agência, MOVER, Renovar e a experiência do Recircula Brasil podem ser compreendidos, então, como componentes complementares de uma nova arquitetura industrial.  

Enquanto o primeiro cria incentivos e requisitos de sustentabilidade e reciclabilidade, o Renovar atua sobre a renovação da frota e a destinação dos veículos em fim de vida. A rastreabilidade, por sua vez, cria condições para comprovar a origem, o processamento e a reinserção dos materiais na economia. 

O processo abre novas perspectivas para desmontadores, recicladores, fabricantes de autopeças, siderúrgicas, montadoras e empresas de tecnologia. O setor de desmontagem deixa de ocupar apenas a etapa final da vida útil do automóvel e passa a integrar uma cadeia de fornecimento de peças, componentes recuperáveis e matérias-primas secundárias.