Sem medo de robôs na linha de produção

Sem medo de robôs na linha de produção

Diretor industrial do Grupo Sabó, Ricardo Teixeira Ávila é entusiasta do uso de robôs colaborativos nas linhas de produção

Multinacional 100% brasileira, a Sabó é uma das líderes mundiais em soluções de vedação e condução para a indústria automobilística, com plantas no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Alemanha, Áustria, China e Hungria, além de escritórios na França, Inglaterra e Japão. No Brasil, é uma das pioneiras no uso de robôs colaborativos nas linhas de produção. Diretor industrial do Grupo, Ricardo Teixeira Ávila é entusiasta da ferramenta, tanto pelos ganhos de eficiência quanto por evitar o uso de funcionários em funções insalubres.

"As automações permitem ritmo constante e estabilidade em nossos processos. Já vivemos uma realidade de redução expressiva de acidentes de trabalho e de afastamentos, além de termos sensível ganho de qualidade e redução de perdas”, disse. 

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Como é o uso de robôs e quais funções eles desempenham na Sabó?

Hoje são cerca de 15 robôs no conceito de braços mecatrônicos nas plantas brasileiras, além de automações diversas e sistemas com elevado grau de manipulação robotizada. São seis robôs do tipo colaborativo. Duas aplicações são mais exploradas: operações de carga e descarga de injetoras que produzem peças de metal-borracha e; operações de embalagens, a granel ou em berços plásticos.

Quais os resultados práticos no ambiente de trabalho?

O uso da robótica liberou o potencial criativo das pessoas, que passaram a monitorar o processo, registrar e aprimorar padrões, além de atender a um número maior de postos por colaborador. As automações permitem ritmo constante e estabilidade em nossos processos. Já vivemos uma realidade de redução expressiva dos acidentes de trabalho e dos afastamentos, além de termos ganho sensível de qualidade e redução de perdas. Nosso indicador de eficiência global de equipamentos está refletindo ganhos reais que não eram tangíveis anteriormente. O ambiente de trabalho tem sido muito impactado. Os trabalhadores passam a ter mais liberdade para pequenas demandas individuais associadas à nossa natureza.

Quais são os retornos e indicadores de eficiência?

O retorno tem sido efetivo. O tempo planejado para recuperação do capital é respeitado e as margens de contribuição e rentabilidade dos contratos são monitoradas. Em vários processos instalamos soluções de medição em tempo real da eficiência dos ativos instalados.

Quais são os pré-requisitos para robotizar uma linha de montagem?

Recomendamos associar a avaliação dos postos de trabalho em sua ergonomia. As soluções devem contribuir para eliminar atividades de pouca agregação de valor, como transbordos dos semiacabados em magazines ou cestos transportadores. É importante considerar, ainda, o peso da peça, do conjunto de peças ou das peças em conjunto com as garras de manipulação.

Os postos de trabalho que amarram pessoal operativo em mais turnos devem ser priorizados em relação àqueles de baixa ocupação de pessoal. Outra coisa: a consideração de um robô colaborativo de alta flexibilidade permite o uso dele em atividades combinadas e/ou diversas entre turnos de trabalho, para mantê-lo operante próximo de sua capacidade. Também alerto para a capacidade de desenvolvimento de soluções nas garras de manipulação, na simulação antecipada dos movimentos dos robôs e na boa gestão de projetos até a implementação.

E o retorno dos investimentos?

A ampliação das soluções de robotização, desde os estímulos da chamada Indústria 3.0 e, agora, evoluindo para a Manufatura Avançada, Inteligente ou Indústria 4.0, veio permitindo crescimento na oferta de produtos e absorção de novos contratos. Há uma preocupação e atenção especial com a produtividade refletida na receita por funcionário em bases anuais, no comparativo com o mercado global, visando a entrega de melhores cotações e valor aos nossos clientes. Temos ampliado nossa presença no mercado nacional, original e reposição, e também ampliado as exportações.

Há necessidade de novas habilidades?

Nossa equipe de engenheiros de processos, de mantenedores, preparadores de máquinas e operadores percebe uma demanda por aperfeiçoamento no campo da eletrônica, no convívio com telas interativas para a solução mais robusta e definitiva de problemas, na contribuição com gestores de projetos, no gerenciamento diário das operações. Em alguns casos, linguagem de programação, atuação mais ampla com sensores diversos, convívio com respostas dinâmicas e inteligência artificial já começam a se fazer presentes. A alfabetização digital já está presente como demanda nas nossas operações.

Qual o nível de segurança?

O nível de segurança nessas linhas é mais alto do que nas linhas sem robôs. O próprio robô colaborativo, por projeto e construção, agrega soluções de segurança impactantes. Uma delas é a sensorização da presença de colaboradores em 3D. Com isso, os braços desaceleram os movimentos em qualquer situação de colisão potencial. Caso ocorresse colisão ou encontro, a pronta resposta do robô é interromper o movimento. Estamos sempre alertas para criar condições de movimentação que não exponham nosso pessoal ao movimento das garras acopladas aos robôs, que seria o ponto de maior risco. Mas não presenciamos qualquer incidente ou acidente desde a instalação. Temos auditorias rotineiras, checagem de dispositivos uma vez ao turno, sem exceção. Em nossas atividades de gerenciamento, as primeiras abordagens são sempre a respeito de segurança do trabalho – e aqui incluímos até os “quase acidentes”. Mesmo entre eles, não há histórico relevante com os colaborativos.

Como está o cenário do processo de robotização no Brasil?

Percebo uma tendência de incremento gradual entre os diversos segmentos industriais. Estamos, ainda, tímidos. A depender dos novos programas de governo, em especial dos rumos econômicos e de estabilidade nas regras que darão previsibilidade e consistência às iniciativas de empreendedores, podemos acelerar. O Brasil sofre com uma demanda ainda baixa pelos seus bens de consumo, apesar do território vasto e de uma população interna considerável.

Nesta perspectiva, quais os caminhos para acelerar o processo?

A ampliação da oferta de tecnologias flexíveis para quantidades menores dos lotes fabricados pode ser uma grande oportunidade. Destaco a expectativa de desenvolvimentos disruptivos dentro do âmbito nacional, na busca por customização de produtos e entregas no tempo correto de exatas quantidades demandadas, o que amplia a produtividade do capital empregado em materiais e em estoques. Nesse contexto, o papel de robôs com perfil flexível tende a ser preponderante. A tecnologia embarcada vem reduzindo de preço e isso cria ofertas mais acessíveis ao empresariado.

Como conjugar economia com investimentos?

O nosso país, ao longo dos últimos anos, vivenciou um freio na economia e redução dos níveis de ocupação da mão de obra – em vários casos acarretando migração da força de trabalho para outros setores da economia, como o de serviços. Pode não ser fácil movimentar a força de trabalho para reocupar os postos na indústria, o que também estimula soluções que envolvam a implantação dos robôs. As novas gerações estão diminuindo o interesse pelas atividades industriais, enquanto novas ocupações surgem e outras são extintas. Devemos superar a timidez e criar exercícios, provas de conceito e incorporar soluções já presentes em outros mercados. Como eu, outros executivos estão se movimentando. Os reflexos já estão sendo anunciados.

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