Tecnologia dobra produção em agroindústrias do interior do Brasil

Tecnologia dobra produção em agroindústrias do interior do Brasil

A Rede Nacional de Produtividade e Inovação tem levado tecnologia para o campo em diversos locais do país

Um projeto, que levou conceitos de manufatura enxuta para o interior do Brasil, vem colhendo bons resultados. As agroindústrias de Sorriso, no Mato Grosso, chegaram a dobrar a produção. Um dos exemplos é a empresa voltada para a piscicultura Delicious Fish.

Com uma revisão nos processos de produção dos peixes foi possível derrubar pela metade o tempo de preparo dos animais no frigorífico. “Em uma das linhas de produção de pescado o ganho foi de 100%. Em lugares que utilizávamos quatro pessoas, com a revisão dos processos, estão trabalhando apenas dois funcionários”, explica o coordenador de controladoria da empresa Evandro Fredo.

Um trabalho similar foi feito na produção de ração. “Nós tínhamos um problema com a devolução de lotes de ração. Ela estragava antes do tempo, ou estava no tamanho errado, isso foi corrigido”, detalha Fredo. O principal aprimoramento foi no controle de qualidade do produto, o que acabou com as devoluções. “A cada 30 minutos, nós estamos realizando testes de flutuação da ração. Isso era feito de dois em dois dias”.

O projeto de introdução de manufatura enxuta em agroindústrias de Sorriso foi viabilizado pela Rede Nacional de Produtividade e Inovação (Renapi), iniciativa da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Em novembro de 2017, foi realizado o Workshop de lançamento do projeto na região. O encontro teve como foco a apresentação dos conceitos de manufatura enxuta, seguido de um mapeamento da situação de cada empresa participante. Os consultores visitaram as fábricas, cinco vezes, para auxiliar na implementação. “As mudanças sugeridas, normalmente, são simples. Alteração no local do maquinário da fábrica ou na forma de corte dos animais. O objetivo maior é agregar valor e otimizar a produção”, explica o coordenador da Renapi, Roberto Pedreira.

Além da Delicious Fish participaram do projeto outras empresas da região, como a Frimenta. A agroindústria de embutidos modificou o processo de desossa dos animais, aumentando a produtividade em 33%. O ganho foi estimado em R$ 56 mil por ano.

 

Biomassa

O próximo passo da Renapi na região é criação de um sistema que identifique origem e usos de biomassa. O mapeamento do insumo será feito por uma parceria entre ABDI e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Agroenergia. O projeto piloto vai ocorrer no Mato Grosso e deve durar três anos. Será organizada uma única base de dados com informações sobre biomassa. “Com o sistema, se eu quiser instalar uma indústria de gelatina, por exemplo, vou saber onde tem a pele animal – matéria prima do produto – e em que época do ano está sendo produzida em escala. A partir destas informações vou instalar minha agroindústria”, explica o pesquisador da Embrapa Bruno Laviola.

O ganho é duplo, o frigorifico começa a lucrar com a pele, que anteriormente era tratada como rejeito, e a agroindústria pode ser instalada estrategicamente onde há matéria prima em abundância. Outro resultado, segundo Laviola, é o número de empregos gerados na região. “O que era um problema, do ponto de vista do descarte, vai virar uma solução para o meio ambiente, mas também de emprego e renda”.

Um dos principais benefícios destacados pelos desenvolvedores do projeto é a possibilidade de geração de energia pela biomassa. “A ABDI identificou, em 2017, que existe uma carência de energia elétrica – em quantidade e qualidade – na região agrícola de Mato Grosso. Atualmente, cada novo empreendimento que surge é obrigado a pensar em alternativas para obter luz elétrica”, destaca o especialista em desenvolvimento produtivo da instituição Antônio Tafuri.

A agroindústria Caramuru, que trabalha com derivados de soja, em Sorriso, é um dos exemplos de empreendimento que enxergou na biomassa uma solução para obter eletricidade. A indústria instalou uma usina que funciona a base de biomassa de madeira. O cavaco de madeira – que é uma espécie de serragem, sobra da indústria madeireira – é queimado e gera vapor. O gás movimenta uma turbina que resulta em energia. “O cavaco é sobra, iria para o lixo. Com a usina, as duas indústrias ganham”, relata Tafuri.

A usina tem capacidade de gerar oito megawatts de eletricidade, o que poderia abastecer uma cidade de 30 mil habitantes. Segundo a Caramuru, os principais ganhos obtidos foram a redução no custo e a independência energética. Atualmente, a empresa tem um processo contínuo, sem depender da rede elétrica, considerada instável na localidade.

A ideia é que exemplos como o da Carumuru se espalhem pelo Brasil. “O interessante, é que biomassa pode ser todo tipo de material orgânico. Como temos uma agricultura forte, este é um insumo abundante no país”, defende Tafuri.

Cacoal

Em outras localidades do interior brasileiro, a intensificação de tecnologia nas atividades agroindustriais também tem dado resultado. A mil quilômetros de Sorriso, em Cacoal, no estado de Rondônia, a Renapi tem atuado no desenvolvimento da cadeia leiteira e do café.

A partir do diagnóstico dos gargalos, a ABDI identificou uma desorganização da cadeia do leite. Existia dificuldade nos registros dos produtores, assim como na comunicação para realizar o transporte do laticínio. “Muitos agricultores tinham os registros anotados em cadernos, o que dificulta a organização e não garante a duração dessas informações. Também, o transporte do leite muitas vezes se dava de forma desorganizada por falta de comunicação”, relata Tafuri. O próximo desafio foi a implementação das melhorias discutidas com a comunidade local.

Para tal, foi contratada a startup DINNI Soluções e Sistemas, residente, do Centro Tecnológico da Universidade Federal de Viçosa – MG. A empresa tinha desenvolvido dois aplicativos voltados para gestão agrária. De forma piloto, eles foram implementados na região.

Os softwares oferecem, por exemplo, o georreferenciamento desde a coleta do leite, a saída dos caminhões, a rota traçada por eles, informações sobre o motorista e a condição das estradas, até o horário da chegada dos tanques no laticínio.

“Assim, o gestor pode se preparar com segurança para receber o leite e iniciar o beneficiamento. Não há tempo parado ou estrutura ociosa”, afirma Alessandro Rodrigues, proprietário do Laticínio Joia, selecionado para o projeto piloto. “Tudo fica registrado. Cada um com seu aparelho celular envia informações em tempo real”.

A ferramenta também permite a gestão do rebanho leiteiro dos produtores. “Leite só pode ser chamado assim se for de rebanho saudável. E esse controle deve ser rigoroso para que nosso produto seja reconhecido pela qualidade. Todos ganham no processo: o laticínio vende mais, os produtores recebem maior valor pelo litro de leite e a região se torna referência”, afirma Alessandro “Joia”. Por meio do sistema, é possível visualizar o número de fêmeas e de machos, touros, inseminações e nascimentos, entre outros dados.

O aplicativo teve boa aceitação, principalmente, porque muitos produtores acessam a internet diariamente. De acordo com uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócios (ABMRA), cerca de 96% dos produtores de Cacoal possuem telefone celular. Destes, 88% contam com um único aparelho em casa, 7% possuem dois aparelhos e 4% disseram ter três ou mais aparelhos. Os smartphones são maioria: 61% já migrou para esta tecnologia entre os produtores atendidos pelo projeto piloto.

O coordenador da Renapi pela ABDI, Roberto Pedreira, explica que depois da fase piloto, a metodologia poderá ser replicada em outras cadeias produtivas em todo o país. “Há muitos aplicativos de gestão disponíveis no mercado. Era preciso fazer mais que isso para que o projeto fosse bem-sucedido. Era preciso que o produtor se identificasse nele, sendo uma forma avançada da atual caderneta, onde ele faz os apontamentos da propriedade – cobertura das vacas, nascimento dos bezerros, saúde animal, compra de rações”.

Cacoal tem 100 mil habitantes e é considerada uma das cinco maiores cidades do Estado. A prefeita do município, Glaucione Rodrigues, aponta que o trabalho promovido pela ABDI abriu novas oportunidades de negócios para os produtores da região. “As pessoas imaginavam que poderiam fazer negociações apenas com o comércio local. Depois das capacitações, estamos negociando com todo o estado e inclusive alguns produtores foram para feiras em São Paulo”.

A prefeita também destaca que exportações estão ocorrendo. Visando o mercado internacional, um próximo ramo de atuação da Renapi será no desenvolvimento da cadeia cafeeira – segundo produto com maior importância econômica na região. “A ideia é criar uma indicação geográfica para o café robusta de Rondônia. Seguindo o exemplo de vinhos e queijos do exterior”, explica Tafuri. Experiências como essa deixaram conhecidos produtos europeus no mundo todo. Os espumantes de “Champanhe” e os queijos de “Roquefort”, ambos franceses, são exemplos notórios. “Indicação geográficas é uma ferramenta importante para gerar valor ao longo das cadeias agroindústrias por meio da origem dos produtos. Além do mais é possível observar consumidores buscarem cada vez mais conhecimento sobre a origem dos produtos, assim como a experiência ao experimentar”, reforça Tafuri.

Pelo Brasil

Ainda estão sendo desenvolvidos projetos de tecnologia em outras cidades. Em Londrina, no interior do Paraná, a Renapi vai ajudar na atração de indústrias e no desenvolvimento das que já existem na localidade. As áreas mapeadas pela ABDI para investimento são de saúde, tecnologia da informação e comunicação (TIC) e agroindustrial. O diretor da Agência, Miguel Nery, explica que a cidade foi escolhida para a instalação da Rede pelo ecossistema de indústrias. “Londrina já tem um grande número de empresas, existe um consolidado arranjo produtivo de TI (Tecnologia da Informação) e um robusto polo de saúde. Inauguramos uma importante frente de inovação”.

Em Pernambuco, uma parceria foi firmada com o Porto Digital. O parque tecnológico fica na capital do estado, Recife, e atua há 16 anos no fomento e disseminação de tecnologias digitais. A ideia principal do local é garantir que jovens inovadores permaneçam na região.

A ABDI tem parceria com o laboratório de prototipagem que funciona no local. A “fábrica-laboratório” de protótipos e soluções digitais está sendo aprimorada e será construído um modelo conceitual ABDI/Porto Digital. “Queremos levar o modelo de laboratório para outros locais do país. A primeira replicação deve ser em Londrina”, explica o coordenador da Renapi Roberto Pedreira.

Em São Paulo, onde a Renapi também atua, foi realizado o programa Rumo à Indústria 4.0. Foram realizados cinco workshops – em cidades do interior – para difundir os conceitos da quarta revolução industrial. As empresas preencheram questionários para avaliar o nível de maturidade em relação à quarta Revolução Industrial. Com estes resultados, os empreendedores puderam definir a trajetória mais adequada para alcançar as tecnologias de ponta.

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