Rastreabilidade fortalece indústria brasileira diante das novas exigências do mercado

Rastreabilidade fortalece indústria brasileira diante das novas exigências do mercado

Sistema verifica a reincorporação de materiais reciclados na cadeia produtiva e prepara empresas para atender a requisitos regulatórios e comerciais cada vez mais rigorosos

Transformar resíduos em novos produtos deixou de ser apenas uma iniciativa ambiental e passou a fazer parte da estratégia de competitividade da indústria. À medida que novas regulamentações e mercados internacionais passam a exigir maior incorporação e rastreabilidade de conteúdo reciclado, qualidade e preço já não são suficientes. Também é preciso comprovar a origem da matéria-prima utilizada na fabricação de embalagens, eletrodomésticos, autopeças e diversos outros produtos.

Desde 2024, o Brasil conta com o Recircula Brasil, plataforma desenvolvida pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) em parceria com a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). Na prática, o sistema permite acompanhar o caminho da matéria-prima reciclada desde a cooperativa de catadores até a indústria de transformação, verificando, por meio do cruzamento de notas fiscais eletrônicas e de auditoria independente, se esse material foi efetivamente reincorporado à cadeia produtiva. Inicialmente voltada para a cadeia do plástico, a infraestrutura agora está sendo ampliada para outros materiais, como alumínio, aço, vidro, papel e têxteis.

Em dois anos de operação, os resultados já demonstram esse potencial. O Recircula Brasil certificou mais de 60 mil toneladas de material reciclado, conectou mais de 300 fornecedores e 1.500 clientes, auditou cerca de 4 mil operadores em mais de 20 estados e contribuiu para evitar aproximadamente 495 mil toneladas de CO₂ equivalente. A iniciativa também foi reconhecida pelas Nações Unidas como referência em rastreabilidade da cadeia do plástico.

A necessidade dessa comprovação ganhou força no Brasil com a publicação do Decreto nº 12.688/2025, que regulamentou dispositivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos e instituiu o sistema de logística reversa de embalagens plásticas. A norma reforçou a necessidade de mecanismos capazes de comprovar o cumprimento das metas de logística reversa e a reincorporação de plástico reciclado à cadeia produtiva. Nesse contexto, o Recircula Brasil passou a oferecer uma infraestrutura de rastreabilidade para acompanhar esse processo.

Segundo a gerente da Unidade de Nova Economia e Indústria Verde da ABDI, Talita Daher, para que a economia circular avance no país, é preciso garantir que o material reciclado volte à indústria como matéria-prima para novos produtos, e esse processo deve ser comprovado de forma confiável.

“Sem dados sólidos, políticas públicas se tornam genéricas, investimentos ficam mais caros e a indústria perde competitividade. A agenda de sustentabilidade depende cada vez mais de mecanismos que permitam medir resultados, monitorar impactos e direcionar investimentos, e o Recircula oferece exatamente essa infraestrutura.”

Todo o processo é auditado pela Central de Custódia, certificadora independente credenciada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), responsável por validar as informações e garantir a confiabilidade dos dados. “Assim, cria-se uma trilha digital da matéria-prima reciclada, oferecendo segurança para empresas, consumidores e poder público”, acrescenta Talita.

Novas cadeias

Além do plástico, o sistema está incorporando outras cadeias produtivas, como alumínio, aço, vidro, papel e têxteis, ampliando o alcance da infraestrutura para diferentes segmentos da economia circular. Segundo estimativas da ABDI, o potencial é alcançar cerca de 27 milhões de toneladas de materiais recicláveis secos gerados anualmente no país.

Com a expansão da iniciativa para novos setores, a ABDI estruturou, em novembro do ano passado, uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) pública, responsável pela governança do sistema e pela proteção das informações comerciais das empresas participantes. A estrutura também permitirá consolidar uma base nacional de dados sobre a reincorporação de materiais reciclados, apoiando a formulação de políticas públicas e a tomada de decisões por empresas e governos.

Além de apoiar empresas no atendimento às exigências regulatórias e de mercado, essa estrutura deverá fornecer informações estratégicas para a formulação de políticas públicas voltadas à economia circular, fortalecendo a competitividade da indústria brasileira em um mercado que exige cada vez mais transparência sobre os atributos ambientais dos produtos.

A importância do programa fica ainda mais evidente diante do cenário da reciclagem no país. O Brasil produz mais de 80 milhões de toneladas de resíduos por ano. Desse total, cerca de 30 milhões de toneladas correspondem a resíduos sólidos urbanos que poderiam ser reciclados, mas apenas 8% retornam efetivamente às cadeias produtivas.